A meta de todo tratamento psiquiátrico não pode mais continuar sendo a remoção de sintomas, porém a recuperação do indivíduo para a comunidade.

Um aspecto muito valorizado no sentido da reabilitação, é levar o doente a compreender a utilidade que terá para ele a prática das atividades expressivas com as quais se familiarizou durante o tratamento ocupacional, mesmo depois da alta.
Os trabalhos rotineiros (domésticos, industriais, burocráticos), são canais demasiado estreitos para dar escoamento às possíveis reativações do inconsciente, freqüentes naqueles que passaram pela experiência psicótica.

Por isso dar forma à situação psíquica sob o impacto de emoções, pintar sonhos e fantasias, será medida preventiva indicada contra recaídas na condição psicótica. Nosso ateliê de pintura está sempre aberto aos egressos e constantemente verificamos quanto lhes são proveitosas as manhãs que aí passam.

Nem sempre o objetivo do tratamento será necessariamente “aprender a levar uma vida convencional dentro dos padrões de ajustamento usados pela média dos chamados cidadãos sadios na nossa cultura” (Frieda Fromm-Reichmann). A oportunidade que o indivíduo teve quando doente, de descobrir as atividades expressivas e criadoras de ordinário tão pouco acessíveis à maioria, poderá abrir-lhe novas perspectivas de aceitação social através da expressão artística ou simplesmente (o que será muito) muni-lo de um meio ao qual poderá recorrer sozinho, para manter seu equilíbrio psíquico.

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Um dos caminhos menos difíceis que encontrei para o acesso ao mundo interno do esquizofrênico foi dar-lhe a oportunidade de desenhar, pintar ou modelar com toda liberdade. Nas imagens assim configuradas teremos auto-retratos da situação psíquica, imagens muitas vezes fragmentadas, extravagantes, mas que ficam aprisionadas no papel, tela ou barro. Poderemos sempre voltar a estudá-las.

Foi observando-os e às imagens que configuravam, que aprendi a respeitá-los como pessoas, e desaprendi muito do que havia aprendido na psiquiatria tradicional. Minha escola foi nesses ateliês.

Nise da Silveira
“20 anos de Terapêutica Ocupacional em Engenho de Dentro”
Revista Brasileira de Saúde Mental, volume X - 1966