Voltando para casa

A mudança de paradigma de atenção aos portadores de transtornos mentais

Barbacena guarda todas essas histórias em sua memória e, mais especificamente, no Museu da Loucura, inaugurado em 1996.

O exemplo de Barbacena é tão notável tanto por essa história que nos remete ao modelo clássico dos manicômios da Idade Média (tal como o Bethlem Royal Hospital of London, o hospital psiquiátrico mais antigo do mundo - data de 1247 - o qual ficou conhecido pela forma brutal como tratava os pacientes), quanto pela superação desse paradigma, nos ares da Reforma Psiquiátrica Brasileira.

As denúncias contra o tratamento desumano no interior dos manicômios, que se iniciam no final da década de 70 e tomam força nos anos 80 e 90, citam os hospitais de Barbacena e começam a mobilizar a sociedade. Na crença de que o paciente com transtorno mental pode e deve ser tratado sem ser retirado do seu meio familiar e social e sem ficar trancafiado, sem liberdade, no hospital psiquiátrico é que se sustenta toda a revolução na atenção à saúde mental.

Em Barbacena, esse desafio é aceito e os hospitais psiquiátricos vão sofrendo intervenções do Ministério da Saúde, fechando suas portas e sendo descredenciados do Sistema Único de Saúde. Como contrapartida, são organizadas as chamadas Residências Terapêuticas as quais recebem os egressos dessas longas internações psiquiátricas e a assistência é oferecida nos Centros de Atenção Psicossocial.

Barbacena, nesse sentido, pode ser tomada como um emblema da Reforma Psiquiátrica no Brasil. O município conta hoje com 24 residências terapêuticas e mais de 150 moradores, todos eles egressos de internações psiquiátricas que duraram o tempo de toda uma vida – 30, 40 e até 60 anos de exclusão social e maus tratos.