Voltando para casa

Retratos - Sônia Maria Costa

Sônia tem 57 anos, 37 dos quais vividos como interna no CHPB. No Hospital, teve dois filhos. O primogênito tem hoje 20 anos e a menina, a caçula, faleceu pouco tempo após o parto. Essa mulher de olhar forte e tristonho exercia grande liderança no hospital. No seu corpo, várias roupas: saia, calça comprida e mais de uma blusa.

Na maioria das vezes, agressiva ao intimidar ou exigir dos companheiros de pavilhão determinadas condutas e atitudes. Com os funcionários do hospital, estabelecia uma relação de acordos velados ao tomar
conta da unidade, ao controlar os pacientes, ao fazer pequenos mandados ou favores. Dessa forma, obtinha um lugar diferenciado, tornando-se intermediária entre as partes, ora como protetora ora como algoz de seus pares.

Sônia tinha privilégios e foi assim que conseguiu sobreviver todos estes anos. É doloroso ouvi-la falar sobre como era obrigada a passar por sessões de eletrochoques “em pé”, celas, comida crua servida em cochos e pilhas de cadáveres. O horror dos relatos sobre a vida nos hospitais psiquiátricos se materializa no corpo dessa mulher, estigmatizada pela loucura.

Voltando para casa

Vítima da institucionalização, nesse misto de submissão e poder, na busca de reconhecimento do outro, adota uma paciente como filha, tirando-a de um quadro de estupor, decidindo com autoridade a sua vida em todas as esferas.

Apesar de sua história, do status adquirido, ainda deseja. Deseja sair daquele lugar, ter sua casa. Tentou na primeira oportunidade, não conseguiu, não a quiseram na residência. Tinham medo daquela mulher que tanto terror espalhou. Mas havia também aquelas às quais protegeu e que já não sabiam viver sem ela. Não sabiam ou não conseguiam. Dessa forma, Sônia escolheu suas companheiras de moradia. Com cada uma tinha uma história.

Essa vivência sofrida se reflete ainda hoje em suas atitudes e comportamentos. Na Residência Terapêutica, exerce ainda grande liderança sobre as demais, influenciando-as, muitas vezes, de acordo com os seus interesses.

Mas, Sônia, agora, se vê diante da necessidade de criar e aprender novas formas de viver e de se relacionar com as outras pessoas. Não reside mais no ambiente hostil do hospital e titubeia quando, em troca de sua própria hostilidade, recebe sentimento inverso. Precisa dialogar e permitir que sua “filha adotiva” viva por si mesma.

“Fui para a FHEMIG aos 14 anos e não tinha nem peito direito. Lembro que vim de Belo Horizonte e que era uma dona aleijada que me olhava. Não conheci família. Dizem que meu pai chamava Henrique e minha mãe Laura. Não sei se tive irmãos. Eu era agressiva, já levei choque, já apanhei muito, mas também já bati e muita gente tinha medo de mim. Na FHEMIG, conheci um paciente que vendia ferro e ele me chamou pra fazer bobagem e aí veio o meu primeiro filho que hoje tem 20 anos. A família do paciente que fiz o filho levou ele embora da FHEMIG. Quando meu filho nasceu, ele foi para um orfanato e eu ia visitar ele e quando ele foi ficando mais velho mandaram ele para um Patronato e depois uma funcionária da FHEMIG quis ficar com ele, levou ele para a casa dela e hoje não sei por onde ele anda”... Lembra que já chegou a trabalhar em casa de família, quando fugiu do Hospital. “Eu conheci a minha patroa na rua e ela me deixou ficar na casa dela e depois eu quis largar tudo e voltar para o Hospital porque estava trabalhando demais, por isto sei fazer de tudo de comida...”. Quanto a morar em Residência Terapêutica (desde fevereiro/2003), coloca que: “Lá no hospital judiavam da gente. Aqui tem sossego, ninguém amola, mas às vezes tem briga. Tem comida gostosa que a gente faz, tem liberdade, talheres. A gente passeia, têm dinheiro pra comprar o que a gente quer. É bom conversar com os vizinhos. Aqui a gente ta aproveitando a vida e lá era só coisa ruim que acontecia...”.