Voltando para casa

Retratos - Sebastiana Célia de Oliveira

Sebastiana tem 62 anos, é solteira e nasceu em Ipameri/ GO. Os pais de Sebastiana morreram quando ela era ainda muito menina. Desde então, e até os oito anos de idade, morou em um orfanato em Ipameri. Adotada nessa época, foi levada para Itapira, interior de São Paulo, e depois para Pindamonhangaba, no mesmo estado.

Até os 23 anos, levava uma vida dita normal. A mãe adotiva não se importou quando, certa vez, Sebastiana se queixou de uma forte dor na perna. Diante da piora da dor, Sebastiana foi levada a vários médicos, os quais constataram que tal dor era “psicológica”. Então, sempre que sentia dores na perna era internada em hospital psiquiátrico.

Internada consecutivas vezes em diversos hospitais psiquiátricos, Sebastiana foi levada para Barbacena em 1970 e permaneceu internada durante 30 anos ininterruptamente.

Chegou no hospital à noite e ao acordar ouviu um barulho amedrontador: “Me senti tão mal que fiquei igual a parede. Tomei choque e anatensol. Tinha espírito de piedade, sou muito católica e sobrevivi graças a minha fé e a igreja. Prometi que, se meus dentes apodrecessem, sobreviveria cinco anos, assim, sofrendo. Os dentes bons quebraram, apodreceram. Tinha vergonha de mim, estava desfigurada, feia. Uma vez me deram um vestido rasgado, tentei arrumar o vestido, e para isso teria que cortá-lo, acharam que estava estragando a roupa. Me deram choque como castigo “.

Após anos de sofrimento, o hospital passou por uma reforma e as mulheres “melhores” foram para o prédio novo: “Eu fui também. O ambiente melhorou e passei a me cuidar. Passei a ajudar na limpeza, fazia trabalhos manuais e conquistei a amizade das auxiliares. Cheguei a freqüentar o Mobral e participar da terapia ocupacional. Comecei a fazer unhas e ganhava um dinheiro. Comecei tratamento dos dentes pagando com o dinheiro que ganhava. Pensava sempre em sair dali. Escrevia várias cartas para minha família, porém era difícil colocar no correio”.

Nestes 30 anos teve apenas duas visitas dos familiares.

Finalmente, em novembro de 2000, recebeu alta hospitalar e foi para a primeira residência terapêutica do município com pacientes de outras instituições psiquiátricas.

Voltando para casa

Neste período, começou a freqüentar a escola, cursando até a 3ª série do 1º grau. Teve um namorado, porém terminou o namoro por achar que não iria dar certo. Passou a dedicar suas horas livres a atividades
religiosas. Em dezembro de 2004, optou por morar sozinha, embora tivesse um bom relacionamento com as demais moradoras.

Em agosto de 2005, foi contratada pelo Instituto José Luiz Ferreira, ONG parceira do projeto de Saúde Mental da Secretaria de Saúde de Barbacena, tornando- se uma colega de trabalho dos demais profissionais de saúde que atuam nas residências terapêuticas. Sebastiana foi contratada como cuidadora e acompanha moradoras de outras residências terapêuticas em atividades como passeios, viagens, eventos sociais, consultas médicas e etc. Vem desempenhando muito bem sua função. Vem, ao longo de sua trajetória, construindo laços sociais, impossibilitados durante anos de exclusão no hospital psiquiátrico.

"O que mais gosto, sinceramente, é da minha liberdade, de fazer e acontecer, no bom sentido. De sentir Deus perto de mim e na natureza. De passear na rua. Eu disse que um dia iria acabar, e acabou... Estou feliz... Muito feliz”.

Sebastiana, tal como o significado de seu nome, é digna de respeito e venerável. Sorriso aberto e franco. Sebastiana transpôs os muros e desabrocha.