Voltando para casa

Transpor muros e voltar para casa

Dagmar, Valdivino, Rui, João, José Pereira, Sônia, Marlene, Sebastiana, Cláudia, Grimalda, Conceição, Baiana, Domingos, Luís Miguel, Ioiô ... são alguns dos tantos moradores de residências terapêuticas e beneficiários do Programa de Volta para Casa que conhecemos e visitamos em suas casas.

Muitos são idosos e carregam, além do transtorno mental, as questões próprias da idade; ostentam em seus corpos o estigma da loucura – andares cambaleantes, rostos distorcidos, olhares vidrados, dentes carcomidos.

Mas é assim, nessas condições e com suas histórias singulares, que partilham casas amplas e propõem soluções para a sua dinâmica e, pouco a pouco, ganham as ruas e se misturam com os transeuntes da cidade com destinos certos: a padaria, a loja de roupas ou sapatos, o supermercado, o restaurante, as aulas de alfabetização, a hidroterapia, o trabalho, a casa do namorado ou da namorada.

Todos sofreram maus tratos indizíveis e foram violados na sua dignidade humana ao longo de 30, 40 anos de internações psiquiátricas. Vários deles chegaram ainda meninos aos hospitais e perderam completamente os vínculos familiares. Com a verdade que a história pessoal lhes confere, nos contam dos cadáveres que viam amontoados e do ritual macabro de “descarnar” os cadáveres dos companheiros que morriam às dezenas, após o suspeito “chá da meianoite”. Muitos passaram por sessões de eletrochoque e eram obrigados a suportá-las em pé, ficaram atados a camas ou algemados em paredes e no chão, e passaram por afogamentos – “tratamentos” recomendados e aplicados pelos então “profissionais de saúde” que gerenciavam e trabalhavam nos hospitais.

Mas não é isso que desejam nos contar quando nos recebem em suas casas, no início de março de 2007: seguram-nos pelas mãos e nos mostram suas salas e quartos enfeitados com quadros que fizeram nas aulas de artesanato, com pequenos altares repletos de imagens de santos, com móveis e eletrodomésticos recém-adquiridos. O auxílio reabilitação psicossocial, garantido pelo Programa de Volta para Casa e recebido mensalmente em suas próprias contas correntes, possibilita essas compras.

Mostram seus cadernos em que registram suas primeiras palavras em letras incertas, contam do almoço
que prepararam, falam de seus passeios e viagens e nos mostram as fotos desses momentos.