Voltando para casa

Transpor muros e voltar para casa

Cada um a seu tempo, dentro de suas possibilidades, precisa começar do nada: reorganizam seus corpos, aprendem a se cuidar, aprendem a olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, a chegar no estabelecimento comercial e a dizerem o que desejam. Precisam aprender a lidar com o dinheiro: o valor das notas (“a nota da onça é melhor”) e das coisas; a não se deixarem ser lesados por outros que querem se aproveitar do que carregam nas carteiras ou do que guardam nos bancos. É um aprendizado complexo, difícil, trabalhoso para eles próprios e para os cuidadores e técnicos de referência das casas.

O cotidiano das residências em que moram esses sobreviventes das internações psiquiátricas de longa permanência é permeado por um rebuliço, uma rotina cheia de afazeres que inclui também o cuidado com a casa e com os outros moradores.

Alguns já conquistaram seus próprios trabalhos e, além do Programa de Volta para Casa e do Benefício de Prestação Continuada (benefício garantido pela Constituição de 1988 a portadores de deficiências e idosos maiores de 67 anos), recebem salários em troca do serviço que prestam: Sebastiana, residente de uma residência terapêutica, mora sozinha, cuida de moradoras de outra casa; Valdivino percorre as casas entregando a feira da semana: verduras, frutas, ovos, carne; Élcio faz um serviço de office-boy de uma ONG;

João queria tanto ser garçom que seu desejo possibilitou uma parceria com o SENAC no curso de hotelaria. Outras parcerias vão se estabelecendo com os artesãos da cidade e as possibilidades de emprego vão se desenhando.

A rede vai se estruturando e extrapola os limites dos serviços de saúde. A rede envolve os vizinhos, os cuidadores, os técnicos, os professores das mais variadas artes, os comerciantes. Todos afetam e são afetados pelos loucos que, agora, andam soltos pela cidade e que, também eles, geram e fazem circular valores. Com o benefício que recebem compram mercadorias e serviços: contratam faxineiros, motoristas, lavadeiras, manicures ...

Vivem, enfim, com a sua loucura (mais a mostra do que a nossa) e confirmam que podem com ela conviver, mas sem que ela seja a única coisa que lhes resta. Não mais estão condenados a serem loucos. Têm ânsia e urgência de viver.