Projeto Quatro Varas
A seca
Famílias inteiras abandonam suas casas à procura de dias melhores nas grandes cidades
O sertanejo vive sob a constante ameaça da falta de chuva. Quando falta água, a vida fica ameaçada e a paisagem verde e alegre do sertão torna-se cinzenta, parecendo uma vegetação de árvores mortas.
As secas são verdadeiros desastres "criminosos" profundamente desestruturadores do corpo social. A seca de 1877 a 1879, por exemplo, matou cerca de 500.000 pessoas, ou seja, a metade da população, e a totalidade dos rebanhos. As crianças e os velhos são os mais atingidos já que sobre eles se abatem os efeitos da má nutrição, da desidratação e das doenças infecto-contagiosas.
Essa situação, que provoca êxodos desestabilizadores, fugas em massa para as regiões litorâneas, redunda em superlotação repentina nas periferias urbanas das grandes capitais do Nordeste e do Sudeste do país, constituindo uma verdadeira população de refugiados de uma política injusta e concentradora de riquezas e terras.
Para o sertanejo, a realidade tem duas faces: inverno e seca. Ele é, antes de tudo, um homem de luta e trabalho que enfrenta, com determinação, as condições climáticas adversas.
Caçar comida faz a festa da criançada. Um pássaro, um camaleão, um preá podem matar a fome e significar mais um dia de sobrevivência. E, quanto mais escassa fica a água, mais longe se vai buscá-la, uma tarefa que conta com a ajuda de todos.
Devido à hostilidade da natureza e à inexistência de apoio, os sertanejos buscam a proteção de seus santos, reproduzindo assim o modelo hierárquico esperado — os santos são protetores, como o são os políticos, fazendeiros e padrinhos.
Com a seca, a vida no sertão fica impossível e partir se torna um imperativo: uns utilizam o pau-de-arara e outros, os mais pobres, seguem a pé. A longa estrada asfaltada é um sinal de que a cidade grande está próxima.
